» Astrologia, Evolução e Consciência

 

Dou início à minha palestra de hoje citando Deepak Chopra, cientista e espiritualista deste novo milénio:

 

"O mundo em que se vive, incluindo a experiência do corpo, é completamente ditado pela maneira como se aprendeu a vê-lo. Se mudarmos a percepção, mudamos a experiência do corpo e do mundo".

 

"A realidade é um produto da nossa intenção mental".

 

A inclusão da consciência na lei da Teoria dos Quanta e na lei da Relatividade revolucionou o designado novo espírito científico. A premissa de que se mudarmos a concepção do mundo, a nossa nova visão mudará o futuro, é cada vez mais válida e premente.

 

Talvez outros estados de consciência nos mostrem outros sistemas, galáxias ou universos, mas a questão central do homem, um universo que se observa a si próprio e que não pára de colocar a constante interrogação porque é que existo? (consciência de si) e qual a finalidade ou o propósito da existência? (evolução) remete-nos sempre para a questão metafísica: se há uma intencionalidade ou um propósito universal?

 

Se atendermos que o universo é um cosmo ou seja, um todo organizado com as suas leis cíclicas manifestando-se no tempo e no espaço, vemos em desenvolvimento a actualização de um propósito contido na semente original. No desdobramento da unidade primordial, o mundo manifestado passa a ser visto como o sonho de Deus em que cada parte vive a ilusão da separatividade, até que a consciência una e integre a identidade e a alteridade como sendo um só.

 

A grande ilusão é pensarmos que vivemos em sistemas fechados e separados, tal como ainda hoje vivemos. A América e o Islão são duas contrapartes de uma só realidade que é o ser humano no mundo actual. Só podemos erradicar um temor quando percebemos a sua causa fundamental, o seu sentido e a sua finalidade, a partir daí a consciência já não precisa da mente equivocada, do desiquilibrio emocional ou do orgão físico doente para experenciar esse tipo de realidade. Por mais que nos custe, isto quer dizer que atraímos as experiências que necessitamos para o nosso desenvolvimento e crescimento.

 

Um dos novos paradigmas da ciência baseia-se na teoria holográfica que acentua a presença e a relação da unidade com a diversidade: "não só a parte está no todo, mas o todo está em cada parte e cada parte tem acesso ao todo". Análoga à tradicional lei de Hermes "o que está em cima é equivalente ao que está em baixo e vice versa" a teoria holográfica expressa esta relação através de hologramas. Actualmente, utilizando a lei da analogia podemos ver não só o cérebro como um holograma interpretando um universo holográfico, como também o mapa natal, o momento astrológico de nascimento como um holograma em que se vê aí espelhada a dinâmica do todo, neste caso o sistema solar, na sua relação directa com a parte — o observador terrestre. Nesta perspectiva qual seria o papel da Astrologia?

 

A Astrologia como ciência parametriza a disposição dos planetas pela geometrização do espaço e a sua relação no tempo face ao observador, ao sujeito cognitivo. A Astrologia como técnica e como instrumento de conhecimento permite-nos ver o modo como a energia ou o movimento dos planetas se desdobra no tempo e assim é possível captar qual a linguagem que o destino se serve para exprimir-se em cada ser particular. Tudo o que é exterior, tudo o que nos acontece é destino, mas a nossa resposta interior exprime o individual, a liberdade criativa na sua relação com o mundo.

 

Por outro lado, se perspectivarmos a Astrologia como uma ciência de ciclos, nós podemos ver através dela uma linguagem que utiliza símbolos, expressando os mais variados modos operativos pela qual a energia universal se manifesta até aos seus mais ínfimos detalhes. Partindo de padrões arquetípicos, a Astrologia pode qualificar em termos essenciais todo e qualquer fenómeno no plano acidental; o seu mundo não é o da quantidade, mas sim o da qualidade portadora de sentido e de significado. Quando compreendemos a teoria da Sincronicidade, conseguimos estabelecer a relação entre um determinado evento e a energia que lhe está subjacente. Neste caso, a consciência que a astrologia nos pode proporcionar é uma consciência de qualidade na qual podemos encontrar respostas mais abrangentes, face à multiplicidade do tempo linear, do mundo das aparências, mecânico e repetitivo. A evolução representa aqui o acto criativo de transformação constante que situa um dado momento em momento de qualidade. Ao dar-mos sentido e significado a um determinado momento, nós realçamos a experiência e tornamo-nos conscientes da dimensão intemporal do instante (do Aion na linguagem Jungiana, ou o cruzamento da ordem implícita com a ordem explícita na linguagem de David Bohm) o qual possibilita a recriação do espaço e do tempo a partir da própria consciência. Nesta acepção, a evolução seria o próprio processo da consciência experimentando-se a si própria nas suas mais variadas formas.

 

Já vimos que o conhecimento astrológico permite qualificar e diferenciar o modo como a energia universal interage em cada partícula individualizada, na maior parte dos casos, reportamo-nos ao ser humano diferenciado pelo momento único que é o seu nascimento. Tal como as ondas quânticas também as relações geométricas entre os planetas transmitem sinais. Uma das propriedades essenciais da onda quântica ou de um transito planetário é a representação de quando e onde um acontecimento se pode produzir. Eles são uma medida da probabilidade de manifestação de um acontecimento, tal como na física quântica há uma conexão entre o espírito e o mundo físico.

 

Numa astrologia que englobe a dimensão da alma, poderíamos dizer que o nível de consciência de cada um e seu o desejo de obter experiência, atraem as condições necessárias para que a personalidade vivencie as experiências concretas nos seus diferentes níveis. Os aspectos planetários traduzem a forma desta relação, por meio deles, atraímos as situações que precisamos viver. A consciência do ciclo destes aspectos é deveras importante para sabermos diferenciar, até que ponto é que um padrão ou uma energia planetária, passa do movimento circular, repetitivo, para o movimento em espiral, símbolo de transformação e de entendimento.

 

A carta natal contêm em si, já uma determinada forma energética em manifestação, no entanto, o acréscimo de consciência alcançado ao longo da vida do indivíduo, possibilita a recriação de novos padrões e de novas formas energéticas. Evoluir é sentirmo-nos criativos a todo o momento, de forma a que não fiquemos intimidados pelo tempo consumista, pelo tempo repetitivo que corrói e cristaliza. Neste contexto, quando se fala de desafio ou Karma, é necessário levar em consideração que os seres humanos são influenciados por configurações cósmicas às quais respondem, de acordo com o seu nível de consciência, cultura e tradição. Quanto maior for a sensibilidade e a consciência dos ritmos e dos ciclos que nos são intrínsecos e que nos envolvem, maior será a nossa liberdade de resposta às situações. Assim, consciência e liberdade crescem na proporção em que resolvemos o binómio determinismo e livre arbítrio, em que apreendemos a lidar com os aspectos dinâmicos e harmónicos na relação com todo o seu ciclo integral.

 

Os Trânsitos e as Crises

A Importância da Crise nos Processos Evolutivos

 

As crises são o modo próprio do auto-aperfeiçoamento, elas levam-nos a pôr em causa o nosso modo de lidar com a realidade. Na perspectiva sincrónica, diríamos: se tudo o que nos acontece tem uma relação connosco, então, em larga medida, somos responsáveis por tudo o que atraímos no decorrer da existência. Na civilização clássica grega, a palavra "krisis" (crise) significava decisão. A dinâmica da crise pede uma resposta, seja esta em forma de acto ou de consciencialização. Os trânsitos planetários, essencialmente os chamados dinâmicos, em que se destacam a conjunção, quadratura e oposição reflectem bem toda a dinâmica deste processo.

 

Assim, se analisarmos os trânsitos dos planetas lentos verificamos que em muitos casos estes fazem três passagens consecutivas a um determinado ponto do tema natal.

Em primeiro lugar analisemos o aspecto dinâmico em si, isolado dos planetas em questão. Pode-se dizer que na primeira passagem do aspecto temos a apresentação do problema (1ª fase). Na segunda passagem, o planeta que faz o aspecto encontra-se em movimento retrógrado, isso significa, que é necessário uma avaliação e revisão do problema ou dos assuntos que estão em causa (2ª fase). Finalmente, na terceira passagem dá-se uma síntese que reúne as experiências da primeira e da segunda fase. Potencialmente, temos aqui maior capacidade de decisão, de entendimento e de resposta. A sintonização com a dinâmica do processo pode expressar-se em acto terapêutico.

 

1ª fase – apresentação, mal estar inconsciente

2ª fase – consciencialização dos processos

3ª fase – decisão, catarse, acto terapêutico, cura

 

Quando um planeta toca um ponto do horóscopo que representa alguma debilidade energética, ocorre uma tensão e um mal estar para que esse problema se desloque para o campo da consciência. O mesmo se dá em termos colectivos quando os planetas em marcha pelo céu criam tensões planetárias entre si.

Para melhor ilustrar o que acabo de dizer vou utilizar a actual oposição de Plutão em Sagitário a Saturno em Gémeos, no contexto da astrologia mundial.

 

Primeiro irei analisar algumas das palavras chaves mais expressivas para cada planeta em estado de desequilíbrio e crise, isto é, o planeta que faz ou recebe um aspecto dinâmico:

 

Quando Saturno é activado encontrando-se em desequilíbrio, dá-se a manifestação de problemas relacionados com a culpa, a dor, o medo de errar, o medo da crítica alheia, o fenómeno da rejeição e, em última análise, a incapacidade de se assumir a responsabilidade dos problemas em questão.

 

No caso de Plutão temos os medos relacionados com as perdas (morte, distanciamento). Os sintomas são o pânico, o terror e a obsessão.

 

Como podemos ver através das palavras-chaves estamos perante um período que tecnicamente é designado por "depressão". Se atendermos a que o aspecto de oposição radicaliza todo o tipo de relacionamentos, então estamos perante um jogo de polaridades nesta 1ª fase da oposição, em que a apresentação do problema tem como protagonistas o terror, a dor e a culpa. Este ciclo de terror, é bom que se lembre, começou na Guerra Fria em 1982/83, altura em que se deu a conjunção de Plutão com Saturno no signo da Balança. O medo e o terror reflectiram-se nessa época em filmes como o "Day After" e no medo concreto de uma terceira guerra mundial entre os Estados Unidos e a União Soviética.

 

A relação destes dois planetas é um pouco similar ao que Jung designou por "função inferior", uma espécie de ferida ou de complexo de inferioridade que se introduz no inconsciente pessoal e colectivo. Os medos de Saturno são ampliados pelo lado mais obsessivo de Plutão, gerando o aspecto tirânico ou ditatorial, para que em última análise nasça uma consciência social reestruturada e uma nova atitude. Como proposta positiva temos o aspecto destrutivo de Plutão eliminando o lado mais egocêntrico de Saturno em prol de uma nova realidade mais abrangente e inclusiva.

 

Saturno em Gémeos implica uma responsabilidade ao nível da comunicação, análise de critérios lógicos assentes na dualidade e a respectiva importância da palavra como veículo de expressão.

 

A proposta de Plutão em Sagitário é levar a mente e as emoções colectivas a um nível mais profundo, onde possam ser captados arquétipos e conceitos que dêem um sentido e um significado maior às questões essenciais que se ligam com a vida, com a morte, o além, o imanente e o transcendente. A perspectivação do futuro terá que ser vista à luz de uma visão que não obscureça a capacidade inerente a cada indivíduo e a cada cultura de encontrar o seu caminho e a sua verdade, sem que esta se imponha sobre os demais. Visto que há uma profunda crise de valores assistimos exteriormente à morte das crenças e das religiões tradicionais. A fé no futuro e na sociedade é posta em causa por uma falta de perspectiva e de valores que enquadrem o homem à luz de uma nova filosofia existencial. O sistema de valores dominante mostra-se impotente para equacionar a natureza essencial do ser humano. Perante esta perspectiva, Plutão ajuda-nos a remover o lixo dos nossos conceitos obsoletos, através de sucessivas crises, percorremos as avenidas do nosso mundo interior até que captemos a luz que é perceptível no fundo do túnel. A verdade da experiência é aqui vivenciada no âmago central de cada um. A solução apresenta-se no encontro com o deus imanente que existe em cada um de nós, já que a verdade é una, apesar de estar revestida com a aparência da multiplicidade. Sem este retorno à unidade filosófica da vida, continuaremos a perpetuar a imposição e a manipulação de valores e crenças, achando que os outros terão de partilhar esses mesmos padrões estabelecidos ora pela tradição convencional, ora pelo senso comum ou pela visão vigente assente no markting e na estatística. Como diria René Guénon, vivemos no reino da quantidade, será que o processo de morte e destruição simbolizado por Plutão em Sagitário nos devolverá o reino da qualidade?

 

Para os restantes planetas temos as seguintes palavras-chaves:


» No caso da Lua, são as inseguranças, as dúvidas, as oscilações emocionais, a sensação de desprotecção e de sermos mal nutridos ou alimentados.

 

» Quanto a Marte, deparamos com a reacção ao medo na forma de ira, fúria, raiva, tudo sintomas de um desejo frustrado.

 

» Em relação a Mercúrio temos o nervosismo, a ansiedade e as dúvidas constantes. O medo consiste em não conseguirmos encontrar uma explicação lógica para a situação.

 

» Quanto a Vénus sentimos que somos mal amados. A desigualdade na troca fere o sentido de auto estima.

 

» No caso de Júpiter há as crises de valores, daquilo em que se acredita, da fé.

 

» Em relação ao Sol encontramos os processos que levam à crise de identidade, à crise dos ideais e valor próprio.

 

» Quanto a Urano temos a crise de falta de liberdade, os aspectos que colocam em causa a nossa independência e singularidade.

 

» No caso de Neptuno temos a crise de ideais a nível colectivo. A sensação de estarmos desligados do todo, de vivermos a fractura com o universo.

 

Finalmente Quíron mostra-nos o ponto onde tendemos a ser feridos por um sentimento de lacuna, de imperfeição e de inadequação que requer atenção e mestria no alcance da cura.

 

Luís Resina 2002

 

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